Ensino em salas de aula, irá melhorar quando ?




Com a conquista do ingresso do aluno à sala de aula no ensino fundamental, é preciso investir agora em ampliação do acesso à educação infantil e ao ensino médio no Brasil

Cláudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita, foi ministra da Administração Federal e Reforma do Estado (gestão FHC) e secretária da Cultura do Estado de SP. Artigo publicado em “O Estado de SP”:


Uma avaliação superficial dos avanços no ensino fundamental no País poderia levar-nos a pressupor que o Brasil tenha progredido como deveria no campo da educação.

Essa primeira impressão não poderia ser diferente, na medida em que o acesso à educação se tornou uma realidade para mais de 97% das crianças brasileiras.

A universalização do ensino na faixa de 7 a 14 anos permitiu, realmente, que uma legião de excluídos tivesse pela primeira vez a oportunidade de freqüentar uma sala de aula.

Medidas importantes adotadas a partir de meados da década de 90 contribuíram para este novo cenário de inclusão educacional, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), o programa Bolsa-Escola - agora ampliado para Bolsa-Família -, a diminuição do número de professores leigos, a criação da TV Escola e a introdução de uma cultura de avaliação da educação.

Falta, no entanto, avançar mais na consolidação dessas medidas, especialmente na introdução de mecanismos que garantam qualidade na educação, algo sobre o que se tem escrito muito, sem que sejam propostos caminhos concretos. Qualquer política pública competente deve se debruçar candidam
ente sobre essa questão.

Com a conquista do ingresso do aluno à sala de aula no ensino fundamental, é preciso investir agora em ampliação do acesso à educação infantil e ao ensino médio no Brasil, pegando duas pontas do sistema: permitindo um início mais preparado no contato com a escola e buscando o aprofunda
mento das condições de empregabilidade e de justiça social dos jovens do país.

O Fundo de Educação Básica (Fundeb), proposto pelo MEC e em tramitação no Congresso, atenderá justamente a esse propósito. Parte dos R$ 4,3 bilhões previstos para o fundo será, por exemplo, aplicada em programas de formação de professores da pré-escola e do ensino médio - por isso sua aprovação deve ocorrer o mais rápido possível.

O Estado brasileiro, por sua vez, terá o grande desafio de promover mudanças qualitativas no ensino público, em meio a um cenário de universalização atrasado em relação aos demais países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Enq
uanto, em 1930, o Brasil tinha apenas 21,5% de suas crianças na escola, países como Estados Unidos e Argentina apresentavam naquela época, respectivamente, 92,1% e 61,3% de crianças matriculadas no ensino fundamental.

O resultado desse atraso e da qualificação deficiente do ensino tende a ser o de um aluno mal-instruído e, em parte, fadado à repetência escolar. O Brasil conta com um índice de repetência de 32% na primeira série. É mais alto do que o constatado no Paraguai (14%) e na Indonésia (11%).

Em países desenvolvidos apenas 3% repetem. Isso significa que no início do ensino fundamental está
se condenando um terço da população brasileira ao atraso e aos problemas de baixa auto-estima, que resultam em evasão escolar.

A entrada tardia da população pobre na escola e sua curta permanência nos bancos escolares são, sem dúvida, um fardo que nosso país ainda carregará nos próximos anos e com o qual terá de lidar com competência, caso queira trilhar o mesmo caminho de países como a Índia e a Coréia do Sul, que historicamente apresentaram atrasos semelhantes e em pouco tempo imprimiram enorme salto de qualidade nos padrões de ensino de suas crianças.

Mas
, sem visão clara do que deve ser enfatizado na escola para garantir qualidade, perde-se a oportunidade de diminuir o fosso social que, além de injusto ao desconsiderar talentos importantes, prejudica o desenvolvimento do país.

Os parâmetros curriculares do MEC deram uma pista do que deveria ser enfatizado em cada segmento de ensino, mas é importante notar que, enquanto a sociedade não se envolver com uma discussão nacional sobre como desenvolver corações e mentes de nossos jovens, não haverá melhoria sustentável da educação.

Algu
ns pontos precisam estar presentes em qualquer projeto que enfatize qualidade na educação nacional. Talvez o principal seja o de propiciar autonomia intelectual e espírito inquiridor aos alunos.

A possibilidade de obter respostas a suas perguntas de forma independente de mestres e eventuais gurus e, melhor ainda, ser capaz de estar permanentemente fazendo perguntas são a base de uma cidadania consciente.

O hábito da leitura por prazer é um caminho importante a ser contemplado neste projeto.

Um jovem que não lê dificilmente formula seus próprios julgamentos, apresenta dificuldades na comp
reensão das atividades que a escola e posteriormente o mercado de trabalho lhe apresentam, não constrói um lazer saudável. O acesso ao saber acumulado pela humanidade é vetado e, mais que isso, o compartilhamento de sonhos se torna improvável.

Mas o que fazer num contexto em que, segundo pesquisa recente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), 60% dos professores do Brasil não têm o hábito da leitura? Estimular a criação de bibliotecas municipais é uma saída.

Tive a oportunidade de coordenar o programa São Paulo: um Estado de Leitores, que, entre outras realizações, garantiu aos 645 municípios do Estado sua própria biblioteca pública. Capacitamos os bibliotecários e agentes de leitura e, com a Secretaria de Educação, introduzimos uma hora de leitura por prazer na grade semanal. Mas isso ainda é insuficiente.

É urgente capacitar os professores para um trabalho mais competente com a leitura, tornando-os leitores. Se os mestres gostarem de ler, freqüentarem bibliotecas públicas e fizerem dos livros companheiros de viagem, seus alunos também o farão. É nesta cruzada que agora me envolvo.
(O Estado de SP, 15/2)



Fonte:
Jornal Ciência, Cláudia Costin

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